Vivemos em uma era de impaciência. No mundo corporativo, o discurso da “eficiência operacional” e da “redução de despesas” é repetido como uma oração sagrada em quase todas as reuniões de diretoria. Economizar recursos sempre foi sinal de boa gestão e eficiência operacional. Porém, quando essa busca se torna uma paranoia, a linha entre a economia e a negligência desaparece, deixando um rastro de tragédias que poderiam ter sido evitadas com um simples exercício de responsabilidade e sede por lucro.
O caso recente da intoxicação em uma piscina na Zona Leste de São Paulo é o retrato mais cruel dessa mentalidade doentia de lucro a qualquer custo que domina o mercado. O que vemos neste caso não é um “acidente”, mas o desfecho lógico de uma gestão que decidiu que a segurança dos seus clientes valia menos do que o custo de uma manutenção profissional e a competição de mercado se resume a dinheiro no bolso e nada mais.O primeiro sintoma desse modelo de gestão empresarial é o desvio de função institucionalizado. Para economizar o salário de um técnico especializado ou o contrato de uma empresa de manutenção, gestores utilizam uma prática muito comum nas empresas hoje em dia, delegam tarefas de alta periculosidade — como o manejo de produtos químicos voláteis — utilizam funcionários sem a devida capacitação ou com orientações meramente superficiais.
No caso deste acidente por intoxicação transformar um colaborador de outra área em um “operador químico improvisado” via instruções de WhatsApp não é agilidade; é roleta russa com a vida alheia. O conhecimento técnico não é um luxo descartável, é a barreira que separa um ambiente salubre de uma câmara de gás.
A paranoia de custos também ataca todos os setores de uma empresa ou até mesmo pessoas. A substituição de insumos certificados por produtos de procedência duvidosa ou “fórmulas caseiras” é uma prática comum em empresas ou profissionais liberais que operam no limite da legalidade. Muitas vezes existe uma competição por preços que leva a pequenos empreendedores e profissionais a “sacrificarem” parte do processo para vender mais.
O consumidor, ao entrar em uma academia, um restaurante ou um hotel, confia em que o serviço prestado segue as normas de segurança. Ele acredita que a água é tratada, que a comida é fresca e que os alvarás estão em dia. No entanto, por trás de fachadas modernas e marketing digital agressivo, muitas vezes se esconde uma operação sucateada, onde a manutenção preventiva é vista como “gasto desnecessário” e o lucro é priorizado sobre o oferecimento de um produto de qualidade para seus clientes.
Empresas ou profissionais que operam sem alvará, sem vistorias de bombeiros e com mão de obra desqualificada para funções críticas não estão apenas “empreendendo com dificuldades”; elas estão cometendo uma fraude contra o consumidor.
Muitas vezes essa atitude pode custar vidas como uma água da piscina com treinamento inadequado, um ingrediente estragado ou até uma placa indicando saída de emergência para um corredor escuro e cheio de materiais que deveriam estar em um depósito.
Quando o dolo eventual — o risco assumido conscientemente — entra em cena, a discussão deixa de ser sobre administração e passa a ser sobre ética e justiça. A morte de uma pessoa em um ambiente que deveria promover saúde é o colapso máximo do propósito empresarial.
Reduzir custos de forma inteligente é uma virtude. Reduzir custos sacrificando a segurança é um crime de oportunidade. Enquanto o mercado e os consumidores não exigirem transparência absoluta ou se deixarem levar pela ilusão do “preço barato” sobre os processos “invisíveis” (quem limpa, quem cozinha, quem mantém, quem vende), continuaremos à mercê de gestores e empreendedores que buscam o lucro a qualquer custo e sorte, administrando seus negócios como uma “roleta russa”, esperando somente o tiro fatal que infelizmente quase sempre quem se dá mal são os clientes e funcionários.
A segurança não deve ser um diferencial competitivo. Ela é um pré-requisito inegociável para qualquer porta que se abra ao público.

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